O onigiri e o gato

 

Vou começar o post falando de uma coisa basante peculiar em um anime que comecei a assistir recentemente, chamado Fruits Basket. Não vou falar do anime e sim do porquê do título do mesmo, e porque me identifiquei muito com isso.

Pra resumir a sinopse, o anime começa contando que diz a lenda do Horóscopo Chinês que Deus ia dar uma festa e todos os animais foram convidados. O rato, espertamente, disse ao gato que a festa seria em um outro dia. No dia da festa, todos os animais estavam estavam lá, menos o gato. A ordem em que os animais chegaram se tornou a adotada no Horóscopo Chinês. O gato, triste e enganado, ficou de fora. O anime conta a história de jovens que conseguem se transformar nos animais do referido Horóscopo inclusive o gato, Kyo (por sinal o personagem mais revoltado da história); mas enfim, não vou esmiuçar isso aqui. Vocês já verão aonde pretendo chegar.

Não há lugar pra você nessa festa.

Entre as crianças do Japão existe uma brincadeira muito popular chamada Cesta de Frutas. Nessa brincadeira, um líder dá para cada criança o nome de uma fruta, e elas assim participam do jogo. Cada criança é convidada a levantar da sua cadeira e a participar da brincadeira sendo chamada pelo nome de fruta que lhe foi dado. À protagonista da anime, Tohru Honda, é dado o nome de onigiri (bolinho de arroz). OK, bolinho de arroz não é fruta, certo? Tohru nunca era chamada a tomar parte no jogo, sendo, portanto, sempre excluída. Mas Tohru sempre foi uma menina de bom coração que se esforçava para agradar e tentar ter a amizade dos demais.

Ore wa… onigiri!

É pra falar justamente sobre isso: ser excluído.

Eu nunca fui aquela criança que sempre teve muitos amigos na escola. No recreio, era mais comum eu ficar comendo no meu canto ou lendo. Provavelmente devo isso à timidez, e definitivamente num mundo onde a capacidade de saber se comunicar bem é tão valorizada, hoje eu vejo isso como um defeito sério. De qualquer forma, eram poucos os que me convidavam pra brincar, puxavam assunto. E eu mesma sempre tive muita dificuldade pra tomar iniciativas. Frequentemente quando tinha trabalho em grupo eu tinha que pedir à professora para me encaixar em algum. Não raras vezes fazia esse tipo de trabalho sozinha; às vezes por preferir assim, às vezes por não ter outra opção. Quando era o segundo caso, eu me sentia internamente humilhada. E não, nunca pedi que colocassem meu nome no trabalho sem eu ter feito nada pois, apesar do meu retraímento, eu gostava de verdade de participar das coisas.

Eu não tenho nenhum amigo da época da escola. Da época da faculdade, poucos.

– x –

Em 2000 eu fazia parte de alguns grupos do Yahoo! para falar de bandas de que eu gostava. Em um desses procurei fazer amizades com algumas meninas, com algumas cheguei a falar por ICQ e telefone, conversas que duravam horas. Tinham particularmente três às quais eu me achava particularmente ligada por laços que eu julgava serem de amizade: uma daqui mesmo, uma carioca então vivendo em Minas e uma curitibana. Havíamos combinado de no fim daquele ano todas se encontrarem pessoalmente em um shopping do Rio, estando a que morava em Minas e de Curitiba na cidade. A mais velha do grupo (a que vivia em Minas) ficou de ligar para todo mundo dias antes a fim de marcar.

Passaram-se vários dias, e nada do contato. Até que em um belo dia eu olho uma postagem da tal moça mais velha no grupo, dizendo que se encontrou com as outras duas e que foi um dia especial, que foi ótimo tê-las conhecido etc.

Fiquei arrasada. Postei no grupo minha insatisfação por ela não ter me telefonado (pois não era o combinado?), e a moça em questão deu uma desculpa qualquer. O fato é que fiquei muito tempo triste por causa disso – e se ainda hoje me lembro disso, é porque talvez não esteja 100% bem resolvido dentro de mim – apesar de, obviamente e pelo ocorrido e pelo tempo passado, eu não ter mais absolutamente nenhum contato com nenhuma delas.

– x –

Eu tinha uma amiga que eu não via há bastante tempo e na verdade nem sei bem o motivo, já que não morávamos longe. São esses distanciamentos que acontecem sem que a gente saiba bem por quê. Ainda assim, eu tinha-lhe um carinho muito grande. Já havia por várias vezes dormido na casa dela, sendo pela família toda muito bem acolhida, fomos a aniversários uma da outra e o que foi muito marcante para mim: por ocasião do falecimento do meu pai, ela apareceu lá com toda sua família para me dar força – e de gestos como esse eu acho que me lembraria mesmo que batesse com a cabeça e perdesse a memória. Pensava comigo: “puxa, mesmo sem ver Fulana há muito tempo quando eu me casar vou chamá-la para a festa, já que ela foi tão bacana comigo quando precisei”.

Aí Fulana se casou. Postou as fotos no Orkut, e eu mais uma vez fiquei triste pois achava que, mesmo “distantes” (não no sentido físico, pois como disse, éramos praticamente vizinhas), eu achava que ela se lembraria de mim. Ainda me considerava amiga dela ainda que não nos víssemos amiúde.

– x –

Ano passado eu consegui um trabalho que estava querendo há muito tempo. Muitos colegas de profissão que entraram comigo tinham mais ou menos minha faixa etária, e em meio a conversas também cheguei a pensar que estivesse fazendo amigos, tanto que por várias vezes chegamos a sair para beber e ter papos divertidos que duravam horas. Algumas pessoas do grupo saíram por ter passado em outros concursos, mas aparentemente a ligação continuava.

O fato é que na última vez em que o grupo se reuniu para beber, não me chamou. E passei boa parte daquela manhã retendo dentro de mim aquele monte de sentimentos horríveis, e acabei à noite descontando com o namorado que nada tinha a ver com a história (quem nunca?). E talvez o pior disso seja saber que provavelmente irei pro túmulo sem saber por que diabos não fui convidada desta vez. Se é porque simplesmente decidiram achar que sou chata, que não sou boa companhia etc., não irão me falar. Acaba sendo mais fácil dar uma desculpa pré-fabricada que definitivamente não cola – e minha experiência com isso é vasta, heaven knows.

A minha vida toda eu me acostumei a viver ora como o gato, me revoltando, ora como o onigiri, tentando ser boazinha a fim de tentar ser aceita pelos grupos. Em comum, o fato de ser sempre excluída, mais cedo ou mais tarde. E acreditem, por mais que isso sempre tenha sido uma constante para mim, sempre doeu. Meu namorado diz que sou a pessoa mais azarada que ele conhece quando o assunto é amizades. Eu não sei se é azar, se é minha timidez, se são coisas erradas que posso estar dizendo ou fazendo, se é porque provavelmente tentei fazer amigos nos lugares errados, se o problema são os outros que não sabem lidar comigo. Mas pergunte pro gato e pro onigiri e se eles gostam de ser gato ou onigiri. Sabe aquele trecho da música Maurício do Legião Urbana? “E dizem que a solidão até que me cai bem”. Parece uma coisa terrível à qual estamos invariavelmente condenados, um carma, uma lepra que faz com que as pessoas não queiram ficar perto de nós por muito tempo. E se rebelar não adianta; tentar ser legal com os amiguinhos às vezes parece ter efeito pior ainda (!!).

E bom, eu sei que apesar de tímida e às vezes meio sem tempo, eu realmente gosto de sair, de beber, de comer, de conversar assuntos interessantes, de ouvir música, de ser chamada pras coisas mesmo que nem sempre dê para ir pois para mim isso é um indicativo de que gostam da minha companhia. Um dos poucos amigos de longa data que tenho vive me chamando, e ele sabe que nem sempre dá ou por causa da data, de ter compromissos no dia etc. Ainda assim, ele continua a me convidar. E quando saímos, é sempre divertido. Resumindo: não é porque eu seja quieta ou ocupada que eu seja, necessariamente, inacessível. Acho que quando a pessoa deixa se lembrar da sua existência, é porque o sentimento ali é qualquer coisa, mas definitivamente não é amizade. Você vira um conhecido (pqp, como eu odeio essa palavra).

Por ora a intenção foi só descrever a metáfora de como é ser onigiri/gato; na verdade eu tenho na cabeça um monte de outros exemplos que a gente vivencia no dia-a-dia dos quais vou falar em outro post. Sim, acho que ainda tem muito a falar sobre isso. E por fim não pensem que o blog terá sempre esse tom depressivo até porque a intenção não é essa. ^^

Peço desculpas pelo texto imenso, mas eu precisava tê-lo escrito.

“Desde aquela epoca eu ja era muito ingênua. Nunca haveria lugar para um onigiri em uma cesta de frutas” – Tohru Honda

 

 

12 Comments

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12 Responses to “O onigiri e o gato”
  1. Cris says:

    Eu amo o Kyo, mas o Yuki é quem mais me ensinou em Fruits Basket. O mangá é muito muito bom mesmo. Se gostou do anime, procure o mangá. É apaixonante, tem mais personagens super interessantes.

    Não sei o que comentar…Bom, ter muitas expectativas trazem muitas decepções. Como diz minha mãe, não tem bicho mais difícil de conviver do que o bicho homem (ser humano).

    • Kárin says:

      Eu ainda não acabei de ver o anime, acredita? Vou tentar acabar antes do AF. Mas me identifiquei no sentido de tentar ser parte de algo, de um grupo, e ser rejeitado. E valeu pela dica do mangá; se der sorte eu pego uma daquelas promoções loucas no estande da Comix.

      Eu agora tô tentando ter menos expectativas mesmo; acho que sofre-se menos. De algumas pessoas hoje eu não espero mais que um bom dia/boa tarde etc., porque amizade mesmo está difícil. Se nem Jesus Cristo que era perfeito agradou a todo mundo, sou eu quem vou agradar?

  2. GC, sua esposa nao pega no seu pe por vc ficar ficar trabalhando tanto. Rapaz, la em casa e na casa dos meus amigos, o bicho pega se ficar trabalhando tanto! Concordo com seu post!

  3. Baby Burning says:

    Também tenho esse “azar” em relação a amigos. Quase todos lembram de mim apenas quando querem algum favor, e outros simplesmente esquecem que existo. Tive algumas decepções no início do ano e tomei algumas atitudes, mesmo que isso custasse minha solidão, o que de fato custou, mas foi necessário.

    • Kárin says:

      Curiosidade, mas que tipo de atitudes? Eu atualmente não vejo outra coisa a fazer a não ser procurar ignorar as pessoas que me excluem, não olhar muito as fotos delas no Facebook porque sei que isso vai me deixar triste. Na verdade é complicado eu ignorar 100% porque algumas das pessoas em questão trabalham na mesma empresa que eu – não no mesmo setor, mas sempre tem aquelas malditas confraternizações em que você TEM QUE esbarrar com elas.
      Na verdade eu não acho que ficar sozinho nesse caso seja o pior. O que você prefere; estar sozinha ou estar no meio de pessoas que claramente não gostam de você e só te dirigem a palavra por educação? Não é preferível ter poucos bons amigos a um monte de conhecidos que estão cagando pra você?
      Tem um trechinho da música “Heaven Knows I’m Miserable Now” do The Smiths que diz: In my life/ Why do I give valuable time/ To people who don’t care if I live or die? E sim, tenho muito disso: me importar com gente que se eu morrer amanhã, não vai derramar uma lágrima. É foda, sei que estou errada, mas queria mudar isso.

      • Baby Burning says:

        Eu nunca fui de muitos amigos, mas pra mim eram o suficiente, essa menina pela qual apoiava sempre e mesmo ela se envolvendo com assuntos meio complicados, conversava muito, aconselhava etc. Mas como eu estava num momento de trabalho, faculdade, estágio e estava infeliz comigo mesma acabei me afastando um pouco, até porque também vi certas atitudes que não queria pra mim e nem pra ela mas nada do que falava adiantava então decidi me afastar. Até que em Janeiro depois dela quase ter uma overdose me confessou que falava mal de mim pelas costas com outra amiga dela, sabe assuntos tão fúteis, como minha preferência por usar coturnos etc. Também estava cansada de ser o quebra galhos digamos assim, sempre que precisava sei lá de uma roupa eu socorria, mas estava notando que faziam meses que ela não pergunta nem como eu estava, então vi que isso tudo e mais algumas coisas em off fizeram com que eu perdesse o carinho sabe?! Então preferi me afastar. Atualmente tenho duas grandes amigas e um amigo que é meu namorado que as vezes sufoco um pouco porque uma das minhas amigas mora em Goiás e outra na Tijuca mas é cadeirante e tem suas limitações pra marcar encontros etc. Então resumidamente é isso =/

        • Kárin says:

          Entendi… também sou muito amiga do meu namorado e tenho poucos amigos em quem confio. E acho que tenho um sensor bom pra identificar quem se aproxima de mim só por interesse e felizmente isso não tem acontecido muito.
          Na verdade eu nem procurei me afastar das pessoas que me excluíram; elas é que se afastaram de mim. O que eu tento fazer é não olhar as fotos, procurar não ter muitas notícias. Se eu fosse inteligente mesmo eu excluiria logo todo mundo das redes sociais – elas me excluíram da vida delas, não é verdade? -, mas falta-me coragem.

          • Baby Burning says:

            Eu não costumo olhar fotos, atualizações etc, então isso não me incomoda tanto mas acabo me excluindo das redes sociais pra evitar certas coisas, chegaram ao ponto de mandar mensagens anônimas pela caixa da verdade do orkut me xingando e dizendo coisas contra meu namorado, exclui o orkut, não entro mais no msn, sobrou o facebook que bloqueei algumas ações, então só evito sabe.

  4. Kárin says:

    Ih, fia… no Formspring algumas pessoas entravam pra fazer perguntas do tipo “é verdade que seu namorado tem pau pequeno?”, mas eu ignorei e isso parou. Orkut não vejo por que excluir, mas as pessoas estão usando pouco mesmo. Ver algumas atualizações no Facebook me deixa triste, sim. Vejo o pessoal com quem eu outrora saía postando fotos em bares, festinhas e várias coisas pras quais não fui convidada e fico me perguntando por que não me chamam mais; fico fantasiando se por alguma razão me transformei em algum tipo de bicho asqueroso que ninguém quer mais ter por perto.

  5. Baby Burning says:

    Eu pensava muito nisso, as vezes tenho algumas recaídas, mas não tem porque me torturar tanto assim. Já cansei de convidar pra encontros diversos, como DDK, shopping, cinema, pracinha, barzinho etc mas sempre ouvia milhões de desculpas e depois de um tempo escutava estórias que aconteceram com outras pessoas e muitas delas aconteciam no mesmo dia em que eu convidava e tal, depois que a ficha caiu parei com os convites mas por outro lado sobrecarreguei o Thyago e só saiu com ele, e adoro, companhia perfeita estamos a um ano juntos e tem sido ótimo, mas sabe como é sinto falta de papo mulherzinha também.

  6. Kárin says:

    “mas sempre ouvia milhões de desculpas e depois de um tempo escutava estórias que aconteceram com outras pessoas e muitas delas aconteciam no mesmo dia em que eu convidava e tal”
    Já aconteceu exatamente a mesma situação comigo. De chamar a pessoa pra parada, ela dar uma desculpa e descobrir que ela acabou indo. Porque não é que ela não quisesse ir à festa; ela não queria era ir COMIGO.
    Da minha parte, já desisti de chamar algumas pessoas. Eu não quero ser masoquista, não gosto de sofrer; se não quer sair comigo foda-se.
    Quando a gente tem namorado que também é melhor amigo é uma maravilha (eu tenho isso também), mas sim, ter amigos além do namoro faz falta. Mas é cada vez mais difícil.

  7. Baby Burning says:

    Como diria a famosa frase clichê “antes só do que mal acompanhado”, então até certo ponto estou bem assim.

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