Pelo direito de não gostar

No ano passado, um crítico inglês detonou o disco do Michel Teló e foi chamado de preconceituoso. Este ano eu fui chamada de preconceituosa por ter expressado claramente não gostava de uma banda cujo vocalista faleceu recentemente. Esses e muitos casos me fazem pensar: será que eu não tenho o direito de simplesmente não gostar de alguma coisa?

Eu já comi banana. De todos os jeitos: ao natural, split, com chocolate, na forma de bananada. Não consigo gostar, não suporto o cheiro, não dá. Costumo dizer que minha relação com essa fruta é um pós-conceito porque sim, já experimentei, já tentei gostar e vi que não dava.

Às vezes você nem precisa ter um contato tão direito com uma coisa (como comê-la) para dizer que não gosta. Ouvir a música de uma banda no rádio e constatar que o som não faz seu estilo. Ver uma peça de roupa que entrou em moda e, mesmo sem ter vestido, já sacar que aquilo não é pra você. O que precisamente me chateia é ser taxada de preconceituosa pelo simples fato de ter expressado uma naogostoopinião negativa.

Eu queria realmente que a galerinha do “falo que gosto de tudo, afinal não sou preconceituoso” me falasse qual a convenção social que estabelece que você deve gostar de todas as coisas, dizer que aquele vocalista que não canta nada é bom porque tem música no rádio e na abertura da novela, que aquela calça que está todo mundo usando é legal porque está na moda, que determinado autor jamais escreve livros ruins porque, se você não o fizer, vai ganhar o estigma de preconceituoso.

Eu já pensei muito a respeito, não chego a nenhuma conclusão 100%, mas falo por mim: quando alguém critica algo de que gosto, vez ou outra penso que a pessoa não conhece a coisa em questão o suficiente, e por isso fala que não gosta. Em alguns casos acho que pode ser isso sim; em outros, realmente a pessoa já teve contato o bastante pra poder dizer que é uma merda. Eu até bem pouco tempo atrás não comia jiló, mas descobri um jeito certo de temperar e hoje se deixarem eu como todos os dias. E já vieram amigos me falar que tentaram temperar o jiló e nem assim gostaram; OK, entendo e não vou julgar nem chamar de preconceituoso.

calcalistrada

Pra mim, não dá.
Crédito da foto: Renner.

 

Pessoa que gosta de tudo não existe. Duvido muito dos que se auto intitulam ecléticos. E vejo com muitos bons olhos quem consegue expressar sua opinião autenticamente, seja ela exaltando ou depreciando.

TODO MUNDO JULGA. “Ah, mas ninguém tem o direito de julgar ninguém”. Mentira. Vou repetir: TODO MUNDO JULGA. Se você não tem opiniões, não emite juízos de valor sobre nada então você não é uma pessoa, é um boneco. Faz parte dessa nossa capacidade maravilhosa de pensar e sentir poder distinguir o bom do ruim, o certo do errado, o gostoso do desagradável.

E ninguém disse que você precisa guardar suas opiniões negativas pra você. Claro que há hora e ocasião para tudo, mas não vejo sentido algum em emitir um juízo de valor positivo para algo que você detesta pelo simples fato de que sempre vai ter alguém com um carimbo imaginário na mão pra gravar preconceituoso na sua testa. Normalmente a maioria dessas pessoas nem sabe direito o que é preconceito, que é você julgar negativamente algo que você não conhece – ou a pessoa já julga de antemão que você não se deu ao trabalho de conhecer e já está falando mal, ou seja, isso é por si um  preconceito!

Poder expressar a própria opinião, sobretudo quando é negativa, pode fazer com que você conquiste a inimizade/estranheza de alguns, mas posso falar pra vocês, é profundamente libertador; ao contrário do preconceito, que é algo que prende, limita. As pessoas que me têm adicionadas no Facebook sabem bem disso, pois eu sofro de uma espécie de sinceridade crônica.

Vale lembrar que não estou falando de preconceito étnico, sexual, religioso etc.; isso é assunto para outro post. Falo das coisas corriqueiras do dia a dia, certo?

Ninguém precisa andar por aí com o polegar apontado pra cima pra agradar a família, os amigos ou quem quer que seja. Poder falar um “não gosto disso” de vez em quando faz um bem danado. Não é ser preconceituoso, não é ser chato, não é ser rabugento; é ser você, é ser autêntico.

Quem quiser complementar – ou até discordar de mim, acho saudável! -, os comentários estão abertos.

 

1 Comment

Tags: , , , ,